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terça-feira, 19 de abril de 2011

Politica do Petroleo

O petróleo e a política dos EUA no Golfo Pérsico: a atualidade da Doutrina Carter.

Escrito por: Igor Fuser*
Resumo:
A lógica da atual invasão do Iraque pelos EUA deve ser buscada numa trajetória de 50 anos
marcados pelo crescente envolvimento militar norte-americano no Golfo Pérsico. Essas
intervenções têm como motivo principal o controle das fartas reservas petrolíferas da região.
Os EUA adotaram em 1980 uma diretriz de política externa, a Doutrina Carter, que prevê o
uso de tropas norte-americanas para garantir o acesso ao petróleo do Golfo Pérsico. No
governo de George W. Bush, essa diretriz passou a se vincular a uma política energética
baseada na busca da maximização da extração de petróleo no mundo inteiro. O resultado
dessa estratégia tem sido o crescente uso da força militar para garantir esses suprimentos.


1. Introdução
Para entender os motivos da invasão do Iraque pelos EUA, é preciso ir
muito além da discussão sobre temas como o terrorismo, armas de destruição
em massa e as “mudanças de regime” que o governo de George W. Bush tenta
promover no Oriente Médio. A postura belicosa dos neoconservadores presentes
na administração republicana tem, não há dúvida, seu papel no estado de “guerra
permanente” que caracteriza a atuação norte-americana naquela região a partir
dos atentados de 11 de setembro de 2001, mas é ilusão supor que um governo
democrata aplicaria uma orientação qualitativamente diferente. Conforme este
artigo procura demonstrar, a política norte-americana para o Oriente Médio
apresenta uma admirável continuidade em todas as administrações – democratas
e republicanas – desde o fim da II Guerra Mundial e, em especial, desde o
anúncio, em 1980, pelo presidente Jimmy Carter, de que os EUA consideram o
petróleo do Golfo Pérsico como um “interesse vital”, a ser defendido “por


* Igor Fuser é doutorando em Ciência Política na Universidade de São Paulo (USP) e professor
de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. Autor do livro Geopolítica – O Mundo
em Conflito (Salesiana, 2006), entre outros. O presente artigo foi apresentado no 5º Encontro
da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP), realizado em Belo Horizonte, de 26 a 29 de
julho de 2006.


todos os meios, inclusive a força militar”. Esse princípio, conhecido como
Doutrina Carter, foi confirmado por todos os presidentes posteriores e deu
fundamento tanto à Guerra do Golfo em 1990/1991 quanto a atual ação
político-militar dos EUA no Iraque.
2. As origens da Doutrina Carter
O interesse norte-americano pelas imensas reservas petróleo do Golfo Pérsico
evoluiu de um âmbito puramente comercial, nas primeiras décadas do século
XX, para um terreno estratégico ligado à afirmação da hegemonia dos EUA
após a II Guerra Mundial. O governo Truman estava firmemente disposto a
integrar o petróleo do Oriente Médio à sua estratégia para o pós-guerra. Os
EUA tinham fornecido 85% dos 7 milhões de barris de petróleo consumidos
pelos Aliados desde 1941. Altos funcionários norte-americanos assinalavam a
importância de garantir um acesso seguro às fontes de petróleo estrangeiras
como um meio de impedir a exaustão das reservas domésticas. Nos anos do
pós-guerra, os EUA desafiaram o predomínio britânico na exploração do petróleo
do Golfo Pérsico, conquistando, a partir do início da década de 50, o controle da
maior parte das reservas da região. Essa transição foi acompanhada pelo surgimento
de um novo desafio: o nacionalismo nos países produtores. Essa tendência começou
com as pressões para mudar as regras de divisão dos lucros em países como o Irã
e a Arábia Saudita, cujos governos passaram a reivindicar condições cada vez melhores.
O primeiro episódio de nacionalização de concessões ocidentais ocorreu no Irã,
sob o governo de Mossadegh. O desafio iraniano foi esmagado com um golpe de
Estado, articulado pelos serviços secretos dos EUA e do Reino Unido, que depôs
Mossadegh e instaurou a monarquia absoluta do xá Reza Pahlevi, um estreito aliado
de Washington. Mas as pressões nacionalistas logo voltaram a ganhar impulso, ajudadas
pela onda anticolonial e terceiro-mundista dos anos 50, culminando com a criação
da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) , em 1960. Uma nova
agenda marcou as relações entre os EUA e os países produtores dali em diante –
uma agenda de conflito, em que se sobressaíram a nacionalizações das concessões
petrolíferas, a elevação dos preços e a politização das questões relativas às remessas
de petróleo. Esses conflitos culminaram com o “choque” do petróleo, deflagrado
em outubro de 1973, quando os preços aumentaram 800% em apenas quatro
meses, provocando uma crise econômica de alcance mundial. Foi nessa ocasião que
os EUA ameaçaram, pela primeira vez, o uso das armas para garantir seu acesso às
fontes de combustível no Oriente Médio.

3. O “direito ao petróleo” e a ameaça da força militar dos EUA no
Golfo Pérsico
A idéia de que os EUA têm algum tipo de “direito” ao petróleo do Oriente
Médio já estava presente, de modo discreto, nas décadas de 40 e 50. Eisenhower
afirmou em 1957, após a crise do Canal de Suez, que os EUA usariam a força
“na eventualidade de uma crise que ameace cortar o acesso do mundo ocidental
ao petróleo do Oriente Médio”. No ano seguinte, o presidente pediu ao
Congresso autorização para enviar tropas ao Oriente Médio. Em sua justificativa,
declarou que a atitude era necessária para mostrar a “todos, inclusive os soviéticos,
que estamos plenamente dispostos a sustentar os direitos ocidentais na região”.
Está implícito nessa fala que um desses “direitos” – e, certamente, o principal
entre eles – era o acesso ao petróleo.
A primeira vez que uma alta autoridade dos EUA mencionou a possibilidade
do emprego da força para garantir o “direito” ao petróleo do Oriente Médio
foi a famosa entrevista do secretário de Estado Henry Kissinger à revista Business
Week, publicada em 13 de janeiro de 1975, durante o governo Ford, em meio às
dificuldades enfrentadas pelo governo norte-americano em articular uma frente
comum dos principais países consumidores nas negociações de preços com a
Opep. Aos jornalistas, Kissinger declarou que, na ausência da solidariedade entre
os consumidores, o único meio de baixar os preços seria “criar uma crise política
de primeira magnitude”. Na seqüência do diálogo, Kissinger confirmou que a
alternativa do uso da força para reduzir os preços do petróleo foi cogitada, mas
disse que a considerava “um caminho perigoso demais”. Em seguida, porém,
fez questão de dizer que essa opção não estava completamente descartada.
“Não estou dizendo que não existe nenhuma circunstância em que nós
poderíamos usar a força”, afirmou, num raciocínio oblíquo em que a negativa
aparece três vezes na mesma frase. “Mas uma coisa é usá-la numa disputa por
preço e outra coisa é (usar a força) no caso de uma situação de real estrangulamento
do mundo industrializado.”
A polêmica entrevista de Kissinger à Business Week foi concedida numa
conjuntura em que a imprensa e funcionários do governo norte-americano
especulavam abertamente sobre a ocupação militar de poços de petróleo no
Oriente Médio – a chamada “oil grab”. Para reforçar essa possibilidade, os EUA
mantiveram, até o final do embargo, uma frota de porta-aviões no Oceano
Índico, próxima ao Golfo Pérsico. Em janeiro de 1975, o acadêmico Robert
Tucker discutiu a viabilidade da ocupação de poços de petróleo em países
árabes num artigo publicado na revista conservadora Commentary sob o título
“Petróleo: A Questão da Intervenção Americana”1. Na opinião de Tucker, a
1. Texto acessado pela internet em http://www.commentarymagazine.com/Summaries/V59I1P23-1.htm.

http://www.pucsp.br/neils

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